<i>Sangue novo</i>, ambição intacta: a «renovação» na seleção a olhar para o EHF Euro 2026

/ Andebol

03-01-2026 12:30

A ida do zerozero a Rio Maior - pode ver AQUI todos os vídeos das declarações - permitiu observar de perto uma seleção cada vez mais consolidada no panorama do andebol internacional, que parte para o EHF Euro 2026 com ambição redobrada, na sequência de uma participação histórica no Mundial 2025, onde alcançou um notável quarto lugar. Em comparação com essa convocatória, registam-se várias alterações significativas. Diogo Rêma, André Sousa, Pedro Portela, Miguel Oliveira e Fábio Magalhães ficaram de fora, enquanto Miguel Espinha, Pedro Tonicher, Diogo Valério, Filipe Monteiro, José Ferreira, Miguel Neves e Gabriel Cavalcanti mereceram a confiança de Paulo Jorge Pereira para integrar o grupo que vai competir nos próximos dias. Ao analisar este segundo lote, salta à vista um dado revelador: à exceção de Miguel Espinha e Diogo Valério, todos os atletas mencionados têm 25 anos ou menos. Um cenário que ilustra de forma clara o impacto do trabalho desenvolvido nas seleções jovens, cujos resultados têm sido extraordinários e sustentados ao longo das últimas competições internacionais.{PROXJOGOS|DIR|212459|0|0} Nesse sentido, o zerozero decidiu olhar com mais atenção para os alicerces desta renovação em curso no andebol português, que não só assegura continuidade como reforça a ideia de que Portugal volta a ser apontado como candidato a chegar às fases mais adiantadas do EHF Euro 2026. «Tudo» começou em 2022... Antes de avançarmos para as declarações dos protagonistas, importa recuar um pouco e enquadrar os resultados alcançados pelas seleções jovens portuguesas. O ponto de partida leva-nos ao verão de 2022, quando Portugal alcançou a final do U20 Euro Sub-20, numa competição que marcou o percurso de vários atletas que, entretanto, chegaram ao escalão sénior. Diogo Rêma, João Gomes, Ricardo Brandão, Gabriel Cavalcanti, Martim Costa e Francisco Costa - a grande figura dessa geração - foram peças-chave na caminhada da equipa orientada por Carlos Martingo até ao jogo decisivo frente à Espanha. No Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos, os lusos bateram-se de igual para igual, mas acabaram derrotados por 35-37, num duelo intenso e equilibrado até ao fim. Apesar do título ter escapado, esse torneio representou um marco importante para o andebol nacional. Portugal afirmou-se definitivamente entre a elite do andebol jovem europeu, alicerçado numa geração de enorme qualidade, da qual muitos atletas mantiveram uma trajetória de crescimento consistente e são hoje elementos nucleares dos Heróis do Mar. 2023 também foi determinante para os jovens portugueses, com o sexto posto alcançado no Mundial Sub-21 [pode consultar AQUI o percurso completo] e no Mundial Sub-19 [pode consultar AQUI o percurso completo]. As equipas orientadas por Carlos Martingo e Nuno Santos, respetivamente, tiveram percursos muito semelhantes, com três derrotas cada, incluindo um duelo de atribuição do quinto e sexto lugar.{IMGMED|ESQ|1304323|Diogo Rêma estava em bom plano em 2025/2026, mas lesionou-se gravemenete} Curiosamente, nenhum atleta foi chamado para representar ambas as seleções, ao contrário do que se viria a verificar em competições posteriores. Ou seja, trataram-se de gerações repletas de talento, que confirmaram que os resultados obtidos não eram fruto do acaso, mas sim reflexo de um trabalho sólido e consistente no andebol luso. Chegámos ao fim com mais dois feitos, desta vez em 2024 e 2025. Estas participações acabam por ter mais pontos em comum comparativamente às últimas descritas, pois distintos jogadores fizeram parte das comitivas. No M20 EHF Euro 2024, a Espanha voltou a erguer-se como obstáculo entre Portugal e o título, impondo-se na final por 35-31. Diogo Rêma, Ricardo Brandão - que se destacou como melhor marcador da seleção com 42 golos -, Filipe Monteiro e José Ferreira foram alguns dos protagonistas que ajudaram a equipa ao longo da competição. Um ano depois, esses mesmos jogadores continuaram a defender as cores de Portugal, mas voltaram a cair numa final renhida, desta vez diante da Dinamarca, que triunfou por 29-26 e conquistou o Mundial Sub-21. Ou seja, desde 2022, os jovens lusos já disputaram três finais de competições e alcançaram o sexto lugar em outras duas ocasiões, um reflexo do trabalho excecional de todos os envolvidos neste processo. O título de campeão será, sem dúvida, uma meta a alcançar no futuro, mas, por agora, o maior reconhecimento vai para os jogadores que hoje integram a seleção A. «O andebol português tem vindo a crescer» Ora, o último a chegar a estas andanças foi José Ferreira, ponta direita do FC Porto que se tem destacado com insistência com 85 golos em apenas 16 jogos realizados. «O estágio tem corrido muito bem. É a minha primeira convocatória para um EHF Euro e sinto-me bastante orgulhoso. O grupo está ambicioso e preparado para o que aí vem», começou por dizer o mais jovem deste grupo de trabalho. «O andebol português tem vindo a crescer e a seleção nacional atravessa um período de renovação, resultado do trabalho feito nas seleções jovens, nas quais participei em várias ocasiões. Nos últimos anos alcançámos resultados notáveis; mesmo com menos recursos que outros países, conseguimos ir mais longe, mostrando o verdadeiro espírito de Portugal. Ainda há muito por conquistar, mas espero continuar a integrar estas convocatórias e contribuir dentro de campo.» Também Francisco Costa, uma das figuras de destaque da equipa, abordou este tema e destacou três exemplos concretos com quem coincidiu. «O Filipe Monteiro está no Sporting, o Ricardo Brandão no FC Porto e o Gabriel Cavalcanti no Benfica - ou seja, representam os três grandes. O Filipe encontrava-se no ABC e, se o treinador do Sporting decidiu contratá-lo, foi porque viu que era o momento certo... e ele tem correspondido muito bem.»{IMGMED|DIR|1397689|Francisco Costa é uma das maiores promessas a nível mundial} «São jogadores relativamente recentes aqui, mas já estão preparados e com a mentalidade certa para o que temos de fazer. Eu ainda sou novo [risos], mas já participei em alguns estágios e sei como tudo funciona. Ou seja, temos realizado um trabalho excelente, com os treinadores das seleções jovens a dar um apoio enorme. Tivemos grandes jogos e competições que nos permitiram evoluir e crescer», acrescentou aos microfones do zerozero. Quem já conviveu com várias gerações é António Areia, ponta direita de 35 anos, que vestiu a camisola dos Heróis do Mar em 114 ocasiões e que olha para estas mudanças como 'normais', deixando elogios à forma como se trabalha nos outros escalões. «As seleções jovens e os clubes em Portugal têm feito um trabalho excecional. O desenvolvimento dos jogadores é essencial para que haja uma renovação natural na seleção.» «É fundamental que os atletas que chegam tragam ambição e o mindset correto para integrar este grupo de trabalho. Se são chamados, é porque têm qualidade. Nós, os mais experientes, faremos tudo para os apoiar e ajudá-los a adaptar-se o mais rapidamente possível», acrescentou o jogador do Tremblay HB. «Toda a gente muda, e nós também» Já analisámos os resultados e ouvimos a opinião de três protagonistas; resta agora partilhar as palavras de Paulo Jorge Pereira, timoneiro da seleção portuguesa, sobre as alterações na convocatória, que também são encaradas com normalidade. «Não há nenhuma seleção que jogue com os mesmos jogadores desde 1995», começou por afirmar aos jornalistas no Rio Maior Sports Center. «Toda a gente muda, e nós também. O Pedro Portela é o Pedro, e podia dar muitos outros exemplos de atletas que deram imenso à seleção. Temos de estar muito agradecidos e celebrar sempre quando os virmos. Ainda não acabou, ele pode regressar à seleção, mas, para já, estamos a fazer uma renovação normal.» «Vão existir sempre mudanças. É natural que alguns atletas comecem a encerrar o seu ciclo na seleção - temos inúmeros exemplos disso nos últimos anos. É espetacular ver como todos sempre se apresentaram muito comprometidos, na maioria dos casos. Por outro lado, é incrível observar como os jogadores mais jovens vão integrando esta equipa. Faz parte do processo», disse ainda. Independentemente dos jogadores convocados para este EHF Euro 2026, Portugal já provou que tem capacidade para competir frente aos melhores. O futuro da modalidade parece, assim, bem assegurado, à luz dos resultados alcançados e dos argumentos apresentados ao longo desta análise...