Invicta azul: glória até de madrugada

/ Futebol

17-05-2026 10:41

O senhor dos cachorros-quentes veste o 'FC Porto Campeão' ao pescoço. Facilita no troco e atira ao freguês. «Somos todos portistas, paga-me depois.» Na barraca da cerveja, o único ponto vermelho admissível, o cenário repete-se. Os 'tira-finos' despacham o elixir da eterna juventude, sem fazer contas à vida.  Pouco passa das 13 horas, a mesa do almoço é trocada pelo coliseu azul e branco, o dia é de comunhão. Desconhecidos tiram fotografias lado a lado, famílias abraçam-se em busca do enquadramento perfeito, o senhor dos cachorros-quentes continua a não ter mãos a medir.  Lá em cima, no topo superior da Alameda do Dragão, já se escutam 'urras' e 'vivas'. Adivinha-se a chegada do cortejo dos campeões, da Famiglia Farioli e do plantel que voltou a acreditar no lema 'azul até ao fim'.   O autocarro portista cospe fogo amigo, o abraço é mecânico e, paradoxalmente, extraordinariamente humano. A velocidade de caracol é inversamente proporcional aos batimentos cardíacos.  Aclamação popular, azul e branco é o coração e o Porto é uma nação. À frente do bus campeão nacional, um motoqueiro lança rateres na atmosfera. O sorriso é-nos familiar.  Olha, olha, Helton Arruda. O goleiro dono da baliza entre 2005 e 2017 transporta um repórter de imagem e entra no espírito da festa. E continua a ficar muito bem de luvas calçadas.  Da Alameda aos Aliados, um dia de azul e glória.  A super-Luísa e os campeões invisíveis Quem mima estes campeões todos os dias? No Olival há muitos heróis escondidos, anónimos. Entram no CT Jorge Costa e ninguém lhes pede um autógrafo, uma foto, uma dedicatória.   A administração de André Villas-Boas não os esquece. No dia de todo o azul, as senhoras da cozinha, os tratadores da relva, os vigilantes e todos os demais funcionários da academia do FC Porto são convidados de honra.  Com uma tarefa primordial. Dar o último abraço aos jogadores antes da entrada no balneário. Camaradas da causa portista, gente de trabalho e dedicação. Um momento bonito pelo simbolismo e a graciosidade.  Por falar em graciosidade, o que dizer da 'Super Luísa'? Já terão ouvido falar desta menina, cujo super poder é encher de sorrisos quem a rodeia. Recupera de um problema oncológico, sempre com força para dar e vender. Não podia faltar à festa.  Na relva, ainda sem poder ajudar, já Samu fala ao Porto Canal. E diz o que lhe vai na alma. «Todos sabem que tento sempre ajudar a equipa. Fiquei contente com o que fiz até à minha lesão. Queria ter contribuído mais, mas o que mais me importa é a equipa», jura o internacional espanhol, a pensar nos festejos e na vingança em forma de golos. Agendada para 26/27.  {IMGFULL|ESQ|1490512|} Novos equipamentos e a tarja dos eternos  Lembram-se da barraquinha vermelha, o único tom encarnado aceite na festa? Esqueçam. Há mais dois a justificar especial menção. Primeiro, claro, a camisola açoriana do Santa Clara; segundo, os números nas costas dos jogadores portistas no equipamento para 26/27.  A administração do FC Porto capitaliza a homilia de amor e apresenta as novas camisolas. Marketing e paixão, uma mistura vencedora.  Paixão, pois então, na lembrança do topo sul. Uma tarja XXL a representar as imagens de Pinto da Costa e Jorge Costa, desaparecidos fisicamente, mas presentes no espírito e nas conversas. Ambos a segurarem o troféu 25/26. Eternos.  A máquina portista funciona, é harmoniosa, não esquece o negócio, mas parece assentar sobretudo no que lhe é essencial: a relação com os sócios, os adeptos e os funcionários. De alto a baixo na hierarquia.  Um 31 de todos.  O clímax nos Aliados Do Dragão ao rio Douro e daí de barco até à Ribeira, sempre em festa, sempre de braços ao alto e gargantas roucas. A noite estende-se, enrosca-se no orgulho destas graníticas gentes. Os campeões desembarcam na margem norte do Douro e sobem até aos Aliados. O percurso de dez minutos demora duas horas, mas não há impaciência neste nirvana azul.  Às 23h30, eclode o epicentro das festividades. Já acompanhados de Pedro Duarte, presidente da câmara, André Villas-Boas e restante comitiva assoma na varanda principal e exibe o troféu da I Liga ao seu povo.  «Foi provavelmente a maior festa de sempre da celebração de um título do FC Porto», grita Villas-Boas. «O FC Porto voltou graças a uma equipa única, com um espírito de vitória único. Agradecemos, de coração, a estes jogadores, ao nosso treinador, à direção do FC Porto, à administração do FC Porto e ao Jorge Costa.» Para o fim da cerimónia protocolar, talvez o mais arrepiante dos momentos. Entre bandeiras, cachecóis, tochas e cânticos, exibe-se a projeção visual de uma homenagem a Jorge Costa.  Ninguém esquece o Bicho e o Bicho, esteja onde estiver, só pode estar feliz. Esta é a sua equipa, a sua derradeira criação.  PORTO ???? pic.twitter.com/ToXSXBlqwP — FC Porto (@FCPorto) May 17, 2026 [ARTIGO ATUALIZADO ÀS 10h30 DE DOMINGO - 17 DE MAIO]